SEGUNDO

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O silêncio reinou. Não haviam outros sons além do sibilar de Mambelé e o assobiar do vento que erguia a poeira sobre o chão. Luaty notou que a  cauda de Mambelé desaparecera e naquele instante, só a parte grossa e com  olhos mantinha-se na superfície. 

Não sabia quanto tempo havia passado, mas no horizonte o sol desaparecera e o laranja tornara-se vermelho, cobrindo quase todo o céu. As nuvens eram pequenos rabiscos cinzentos tão finos que pareciam impressas ao invés de sobrepostas nele. Não importava onde Capita estava, nem  o que fazia, Luaty só queria ser o próximo a ter seu desejo realizado, o  próximo a ir buscar o pente. De tantas opções ele havia escolhido a de ter  sua mãe de volta. Agora, só precisava achar o pente. 

Começou a se aproximar, mas Nelito o deteve, colocando o braço musculoso sobre o caminho. Tinha o mesmo olhar diluído que o de Capita.

— Hové* — Luaty falou —, é a minha vez. Quero ser rico igual as pessoas das novelas, comprar bué d'grifes, binas e computadores. Depois quero ver quem vai mais me abusar.

Luaty sentiu um fervor brotar de dentro de si. Uma fúria misturada com inveja, quis lutar e empurrar Nelito ao chão, depois pegaria uma pedra e bateria na sua cabeça até ele entender que era a sua vez. Se não entendesse, furaria seus olhos com os dedos e depois os arrancaria. Era a coisa mais sensata a se fazer, sabia disso. 

Mas uma voz diferente da que o incitava a fazer aquilo — uma coisa pequena que estava num lugar bem fundo, e cujo tom era fraco como o sussurrar de formigas —, o alertava que Nelito era muito mais forte que ele, que provavelmente seria ele quem faria todas essas coisas. Luaty odiou ouvir essa voz, parecia com ele e lembrava em muito uma galinha depenada. 

Nelito andou até a lagoa e mergulhou. As gotas saltaram e uma delas caiu sobre o lábio de Luaty. Tinha um gosto azedo e cheirava a ferro molhado e era estranhamente quente. O tempo voltou a tornar-se imensurável  

e dessa vez foi Sílvia quem quis ultrapassá-lo.

— Xé*, não! — falou. Esticou a mão e segurou a parte de trás da gola de sua blusa e a puxou para baixo. Sílvia caiu e bateu a cabeça sobre o chão. 

Nelito ouviu um riso, um silvo ou talvez até mesmo fosse o vento, não se importou. Começou a caminhar em direção a lagoa e a Mambelé. 

Estava de pé sobre os blocos pronto para saltar quando mãos macias e quentes se apertaram sobre seu braço e o puxaram para longe. Ele socou e se debateu enquanto Sílvia o afastava da água, do pente, do seu desejo, da sua mãe. 

— Me larga! — gritou.

Continuou a socar, mirando nos seus braços e ombros, sentia os ossos das mãos chocarem com os dela, mas Sílvia continuava a arrastar-lhe. Tinha o rosto numa expressão dolorosa, mas os olhos não estavam iguais aos de Nelito e Capita; Luaty notou, brilhavam. 

— É armadilha — ela falou —, armadilha!

A voz que Nelito odiava e que parecia cada vez mais com ele, começou a escalar o poço profundo onde se encontrava, começava a se tornar maior e mais forte. Ele se debateu ainda mais, conseguiu se soltar e correu até a lagoa. A voz preencheu toda sua mente e voltou a tomar o controlo, a tornar-se apenas um com ele próprio. Mas Luaty ainda corria em direção ao lago. 

— PARE! Pare! — disse para si mesmo.

Pisou sobre os blocos e quando Sílvia o alcançou, segurou seu braço, o puxando novamente. Mambelé guinchou furiosa e atacou, projectando a  cabeça como a ponta de uma flexa e desencaixando presas do tamanho de braços. 

Antes que alcançasse Luaty e Sílvia, embateu em algo invisível e fez os pilares de ferro vibrarem e zunirem em timbres altos. Balançou a cabeça tentando se orientar. 

Histórias Fantásticas de Uma Terra LongínquaOnde histórias criam vida. Descubra agora