35 | Vale da Sombra da Morte

76 7 0
                                    

- Bem, hora do adeus - o noviço se curva brevemente.

- Sim. Só me deixa te dar um abraço antes - estendo os braços na sua direção, ele se afasta rapidamente.

- Carente, heim!

- Vem cá - dou um passo mais perto, ele se afasta mais um pouco.

- Não curto abraços - Sun faz careta.

- Mas ama fazer estragos, não ama, seu fake lixo?

Sun, ou melhor, seu fake, sorri:

- Espertinha, como descobriu?

- Está sem a faixa. Wukong não pode tirar ela. É um péssimo imitador para esquecer algo tão importante assim.

- Tsc, acertou. Vai fazer o que agora que está a sós com o seu pesadelo? - Fake estrala os dedos e uma fortaleza de concreto nos abriga. Uma espécie de galpão empoeirado toma todo o lugar onde a vista alcança. - Vai correr? Chorar? Pedir socorro?

- Vou lutar - dou de ombros e sorrio. Não sinto medo, acho que não sou normal.

- Não me faça rir, criatura - ele estrala os dedos e um trono de pedra se forma atrás de si. Se senta nele e invoca um cavalete com um quadro em branco.

- Wukong vai chegar em breve - digo torcendo para que ele entre em contato comigo por, pelo menos, em telepatia.

- Para a nossa festinha particular, viva! Que demais - Sun falso bate duas palminhas em zombaria.

- Porque fez tudo isso? Poderia ter levado uma vida normal.

- Isso é o que você pensa. Só tenho vida se o outro estiver dormindo, cansado ou bem longe. E teria uma bela vida se a praga da humanidade não existisse. Na verdade, eu era bem assim mesmo no começo: uma mera cópia - ele sorri e se espreguiça. - No entanto! Aperfeiçoei cada habilidade de sobreviver independente daquele adestrado. Posso não fazer tudo o que quero ainda, pois não consegui exterminar aquele lixo que chamam de original mas, em comparação aos primeiros dias, posso dizer que sou livre, sou tudo aquilo que ele seria se não estivesse sendo controlado por aquela... aquela porcaria no crânio dele. Queria substituir ele, tomar seu lugar e desfrutar de suas glórias, de suas conquistas.

Fake respira fundo, invoca uma taça de vinho e a toma. Quebra contra a parede:

- Para vocês, eu não passo de uma cópia, tsc, tsc. Mas senti cada dor da faixa, vivi cada angústia de ser rejeitado. Sabia que não importa o que o macaco faça, não importa o quão bom ele seja em algo, os outros só enxergam um macaco?

Olho para a tela do cavalete e há uma pintura nela. Uma mulher está agonizando na fogueira. Essa imagem some e outra aparece, dessa vez, há escravos em um navio negreiro. Barulho de quadro negro sendo arranhado agride meus tímpanos, encaro as paredes e vejo quadros sugindo retratando escravos indígenas, animais sendo atrações em circos, pessoas em estádios agredindo umas as outras, guerras, bombas atômicas, campos de concentração.

Mesmo sem entender direito o que ele quer me mostrar com isso, digo sem rodeios:

- Sinto mui-

- Não, você não sente. Você é humana, você é um ser, segundo os próprios humanos, superior. Não importa quantos atos graves, hediondos faça contra o seu semelhante ou aos animais considerados inferiores, ainda será tratada como uma deusa só por que é da espécie humana. Cansei disso!

Ele se desfaz em fumaça. Protejo meus olhos de seu avanço sobre mim. Quando retiro os antebraços da frente de meu rosto, vejo uma cidade devastada, um lugar cinzento com várias pessoas prestes a me atacar com lanças, granadas, pedras... elas estão cobertas por trapos, completamente sujas de fuligem.

Tento correr para longe delas mas elas me cercam. Quando sinto um soco nas minhas costelas seguro o pulso de quem me atacou na hora. Essa pessoa me lembra uma camponesa da idade média, está desgrenhada e fede a esgoto parado, ela sorri com dentes completamente escurecidos de tão apodrecidos que estão.

- Vá em frente! Mostre a sua verdadeira natureza! - ela diz a mim.

Faço crescer garras em minha pata e a ataco. Sinto algo viscoso escorrer em mim, não dou a mínima pois sei que é o Fake tentando me enlouquecer. Essa visão eu já tive a algum tempo atrás. Depois de atacar vários oponentes que se lançaram sobre mim, todos vão se desfazendo em pelos.

Já estava dando risada e sim, foi como eu previ.

- Valente? - vejo Wukong dourado me chamando, o fitei pelo canto do olho. Sua aparição em telepatia morna meu coração.

- Wukong? - o chamo enquanto tento encontrar o Fake dentre várias cópias lutando contra mim.

- Como está indo? - suas sobrancelhas estão franzidas, tento não me concentrar em pensar em quão aflito ele deve estar nesse instante.

- Melhor do que nunca...

- Que ótimo - seu rosto se aproxima do meu, céus, como eu queria estar ao seu lado de fato. - Estou indo aí agora mesmo.

- Acho melhor você não vir, é arriscado demais. É um horror te imaginar preso aqui.

- Sabe que não pode me segurar.

- Sei. Por isso não tenho escolha a não ser terminar isso antes de você aparecer.

- Minha discípula.

- Meu rei.

E no desvanecer de sua imagem, dou meu grito de vitória, em forma de dragão, aperto o Fake em minhas garras.

- Não vai me matar. É uma boa menina...

- Quem lhe disse que pode me enganar? Eu sei muito bem que não passa de um tufo de pelos.

O despedaço. Os pelos de que era constituído a maior dor de cabeça que já enfrentei, se tornam escuros e viram pó ao vento. Escondo meu rosto para não inalar.

- Valente? - Wukong aparece vendado atrás de mim. Volto a versão original, humana.

- Teimoso, você, heim! - dou um soquinho em seu ombro.

- Que mestre seria eu se te deixasse sozinha aqui por tanto tempo? - ele dá um de seus sorrisos calorosos tanto quanto o seu olhar.

- Tenho medo de pedir para tirar a venda. Vai que...

- Está tudo bem. Macaque acabou de me avisar, através da telepatia, que MK voltou ao normal.

- Isso... é mesmo real? - abro os braços e Wukong encara o cenário do vale coberto de nuvens escuras, com a sua terra e parca grama cinzentos. Pelos avermelhados flutuam ao nosso redor como dentes-de-leão.

- Acredite: é sim. - Sun dá um sorrisinho de lado. - Parabéns, garota, você conseguiu.

- Obrigada por tudo! - abraço Sun quase derrubando ele, me permito chorar contra a sua armadura dourada. - Sem você e os outros ajudando... nunca ia conseguir vencer.

- Valente? - Sun acaricia meus cabelos. - Está tudo bem agora. Vamos para casa.

- É a melhor frase que alguém já me disse hoje!

A Discípula de Sun WukongWhere stories live. Discover now